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quarta-feira, 11 de maio de 2011

Rebeca Amorim Csalog e Luis Belchior

Concerto de harpa e violoncelo
Rebeca Amorim Csalog e Luis Belchior
26 Maio às 21h30


















Rebeca Amorim Csalog (harpa)

Nasce a 14 de Janeiro de 1996, em Lisboa. Começa a estudar violino aos três anos, na Academia de Música de Linda-a-Velha. Aos seis anos, entra no conservatório, onde escolhe como instrumento principal a Harpa, estudando com Andreia Marques. Actualmente é aluna de Ana Castanhito. Estuda violino como instrumento secundário com a professora Pamela. Já participou em diversas Master classes de Harpa com Liseta Rossi, Clotilde Rosa e Zoraida Ávila. Participou em diversos workshops da Orquestra Jovem Metropolitana como violinista. Ganhou o Segundo Prémio no concurso “Arpaplus” em Sevilha, em Fevereiro de 2009 e uma Menção Honrosa no II Concurso Ibérico de Música de Câmara com Harpa, em Madrid, em Fevereiro de 2008. Em 2009 foi convidada para tocar com os Músicos e Coro do Tejo o “Requiem” de John Rutter, no Museu do Azulejo, Lisboa, que foi gravado em directo para a Antena 2. Em Fevereiro de 2011 ganhou o Primeiro Prémio no III Concurso Ibérico de Música de Câmara com Harpa em Madrid, juntamente com o violoncelista Luís Belchior, com o qual já fez vários concertos, destacando-se um concerto em directo para a Antena 2. Paralelamente frequenta aulas de canto com a professora Filomena Amaro, inserida no Coro Especial do Conservatório. É membro do Coro Infantil da Universidade de Lisboa, dirigido por Érica Mandillo, com o qual já fez inúmeros concertos por todo o país e também no estrangeiro, nomeadamente em França e na Suíça. Com este coro, foi solista por diversas vezes, em obras como a “Ceremony of Carols” de Benjamin Britten e no “Presente de Natal” de Fernando Lopes Graça. Participou já em diversas óperas, como cantora, tanto solista como inserida num coro: na estreia de “A Floresta” de Eurico Carrapatoso, no coro, no Teatro São Luís em Lisboa, 2004; em “O Esquilo Esperto” de Nino Rota, no coro, na Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa, 2004; em “O Principezinho” de Daniel Schvetz, no coro, no Teatro da Trindade, em Lisboa, 2005; em “Pollicino” de Hans-Werner Henze, como irmã de Clotilde, na Culturgest, Lisboa, 2006; em “A arca de Noé” de Benjamin Britten, com o papel de Sra. Jafet, no Teatro Olga Cadaval em Sintra, 2007; e em “Dido e Eneias” de Henry Purcell, com o papel de primeira bruxa, no Centro Cultural de Belém em Lisboa, 2009. Estreou como solista, no papel de Marilú, a ópera “As Palavras na Barriga” de Vasco Negreiros, nos Dias da Música do Centro Cultural de Belém, em Abril de 2010. Neste momento, frequenta o 5º ano do curso básico de Harpa, o 6º ano de Formação Musical, o 5º ano de Coro e o 5º ano de Orquestra, na Escola de Música do Conservatório Nacional de Lisboa. 


Luís Maria Fabião de Campos Belchior (violoncelo)

Luís Belchior nasceu em Lisboa, em 1996, tendo iniciado os seus estudos musicais aos 6 anos na Orquestra Metropolitana de Lisboa. Um ano depois, ingressa na Escola de Música do Conservatório Nacional, onde estuda desde 2003. Inicia a prática de Violoncelo com a professora Mª José Falcão, tendo também estudado em Workshops e Masterclasses com os professores Ricardo Mota, Ângela Carneiro, Catarina Anacleto e William Conway. É galardoado no ano lectivo 2006/2007 com a Bolsa Wagner e com o Prémio Joseph Haydn. Em 2009 e 2010 faz parte da OJ.COM, que reúne os melhores instrumentistas dos Conservatórios Oficiais de Música. Em 2009 toca a solo no Grande Auditório do CCB o Concerto para dois violoncelos e orquestra de Vivaldi, com a orquestra de cordas do Conservatório Nacional. Em 2010, toca no Jardim de Inverno do Teatro S. Luiz o Concerto em Dó Maior de Joseph Haydn, acompanhado pela Orquestra Clássica do Conservatório. Em Fevereiro de 2011 ganha, juntamente com a harpista Rebeca Amorim Csalog, o 1º Prémio no III Concurso Ibérico de Música de Câmara com Harpa, em Madrid. Com a mesma harpista, tocou em directo para a Antena 2, num concerto aberto.


sexta-feira, 1 de abril de 2011

Luis Miguel Cintra | Teatro − profissão ou arte? | 01 de Abril às 19h00



Luís Miguel Cintra | "Teatro − profissão ou arte?"
01 de Abril às 19h00
Entrada Livre


A Appleton Square, enquanto espaço multidisciplinar, tem agendado para o próximo ano, um conjunto de conferências e concertos inseridos no programa "Quintas às Sete". A conferência "Teatro − profissão ou arte?", do actor e encenador Luís Miguel Cintra terá lugar no dia 01 de Abril (6ªf, excepcionalmente), pelas 19h00.

A entrada é livre, gostaríamos de contar com a vossa presença.

Luis Miguel Cintra
Nasceu em Madrid em 1949. Iniciou a sua carreira de actor e encenador de teatro no Grupo de Teatro da Faculdade de Letras de Lisboa. Frequentou a Bristol Old Vic Theatre School em Inglaterra. Em 1973 fundou em Lisboa com Jorge Silva Melo o Teatro da Cornucópia que desde então dirige, agora com Cristina Reis, e onde tem encenado e representado textos de todo o reportório teatral. Encenou ópera para o Teatro Nacional de S.Carlos, no Teatro da Cornucópia, na Culturgest e no Teatro Rivoli/Culturporto. Participou com a sua companhia no Festival de Teatro da Bienal de Veneza em 1984, no Festival de Avignon de 1988, no Festival de Outono de Paris em 1989 e em 1991 na Europália de Bruxelas e na sessão da École des Maîtres que lhe foi dedicada. Em 1997 trabalhou como actor em Paris no Théâtre de la Commune-Pandora, Aubervilliers. Faz regularmente recitais de poesia e gravou vários discos de literatura portuguesa. Tem participado como recitante em vários concertos. No cinema interpretou filmes de João César Monteiro, Paulo Rocha, Luis Filipe Rocha, Solveig Nordlund, Jorge Silva Melo, Manoel de Oliveira, Christine Laurent, José Álvaro de Morais, Pedro Costa, Joaquim Pinto, Maria de Medeiros, Patrick Mimouni, Teresa Vilaverde, João Botelho, Pablo Llorca, Jorge Cramez, John Malkovich e Raquel Freire, Catarina Ruivo, João Constâncio, entre outros.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

"Literatura é um sal (o das ilhas que vogam no azul, o das vozes que se extinguem no mar)" | João de Melo


João de Melo | "Literatura é um sal (o das ilhas que vogam no azul, o das vozes que se extinguem no mar)"
24 Fevereiro às 19h00 | Entrada livre


Com excepção dos nomes e das cores, que se haviam delido no tempo, seriam apenas os barcos – os mesmos desse dia feliz em que papá decidira levá-la a vê-los de perto pela primeira vez. Porque lá estavam ainda, emborcados por cima do convés, os mesmos escaleres cobertos pelas lonas. Estavam
 as torres, as vigias redondas como olhos de peixe e as mesmas bóias ressequidas, presas dos ganchos. Quando largaram da doca – e o focinho cortante das proas rasgou o pano azul das águas atlânticas, rumo a Lisboa – havia também a mesma chuva ácida do princípio da noite. Além disso, dera-se a chegada das mesmíssimas vacas ao cais de embarque, sendo elas destinadas aos matadouros continentais. E o pranto da muita gente que ali ficou a agitar lencinhos de adeus fora-se logo convertendo num uivo, o qual acabou por confundir-se com o rumor do vento a alto mar.

João de Melo, Gente Feliz Com Lágrimas, cap. 1




"Este o povo que nasceu no mar. Veio-lhe o sangue
do sal. Suas veias boiaram outrora
entre cabeleiras de algas e fungos de basalto.
Abriu-se-lhe a boca no remoto esquecimento
dos búzios. Memória são as conchas desertas
o calhau rolado arenoso silêncio sobre rocha.

Gerado talvez entre o grito enfermo das baleias
e o rasto dos navios. Pois este o povo
se (re)conhece entre areia e mar
no preciso instante em que a pedra
e o corpo se tocam e amam
a água

E por isso os peixes
nos atravessam os olhos
a nado

Viajam entre nós e a certeza
do corpo."


JOÃO DE MELO | BIOGRAFIA

Nasceu na ilha de São Miguel (Açores) em 1949, onde completou a instrução primária, após o que prosseguiu os seus estudos no continente. Em 1967 passou a residir e a trabalhar em Lisboa. Depois de participar na guerra colonial em Angola entre 1971 e 1974 (tema de duas das suas obras mais significativas, a antologia “Os Anos da Guerra” e o romance “Autópsia de Um Mar de Ruínas”), trabalhou na vida sindical, foi editor de autores portugueses e crítico literário. Frequentou a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, pela qual veio a licenciar-se em 1981 com o curso de Filologia Românica. Professor dos ensinos secundário e superior durante vários anos, foi convidado pelo governo português para o cargo de conselheiro cultural junto da embaixada de Portugal em Espanha (que desempenhou durante 9 anos, entre 2001 e 2010). Em 2003, em Madrid, criou a “Mostra Portuguesa” (7 edições), o maior evento cultural português fora de fronteiras.
Autor de mais de 20 obras (ficção, ensaios, antologias, poesia, livros de crónica e de viagem), os seus romances, livros de contos e outros textos estão traduzidos numa dúzia de países (Espanha, Itália, França, Holanda, Roménia, Bulgária, Estados Unidos, Hungria, Alemanha, Reino Unido, Sérvia e México).
Foram-lhe atribuídos os seguintes prémios literários: Grande Prémio da Associação Portuguesa de Escritores, Prémio Eça de Queiroz/Cidade de Lisboa, Prémio Cristóvão Colombo (Capitais Íbero-americanas), Prémio Fernando Namora/Casino do Estoril, Prémio Antena 1, Prémio «A Balada» e Prémio Dinis da Luz.
“Gente Feliz com Lágrimas”, o seu romance mais conhecido, foi adaptado ao teatro pelo grupo O Bando, a telefilme e a série de televisão pelo realizador José Medeiros.



OBRAS DE JOÃO DE MELO

A Divina Miséria (Novela), 2009

Luxúria Branca e Gabriela (Conto)
ilustrações de Francisco Simões , 2009

O Vinho (Conto)
ilustrações de Paula Rego, 2008

O Mar de Madrid (Romance), 2006

As Coisas da Alma (Contos), 2003

Literatura e Identidade / Identidad y Literatura” (bilingue) (Ensaio), 2003

Antologia do Conto Português (Antologia), 2002

Açores: O Segredo das Ilhas (Viagens), 2000

O Homem Suspenso (Romance), 1996

Dicionário de Paixões (Crónicas), 1994

Bem-Aventuranças (Contos), 1992

As Manhãs Rosadas (Conto)
ilustrações de David de Almeida, 1991

Gente Feliz com Lágrimas (Romance), 1988
(Grande Prémio de Novela e Romance da APE, 1989
Prémio Fernando Namora, 1989
Prémio Eça de Queirós/Cidade de Lisboa, 1989
Prémio Livro do Ano Antena 1, 1989
Premio Internacional Cristóbal Colón de las Ciudades Capitales Íbero-americanas, 1990).

Os Anos da Guerra (Antologia), 1988

Entre Pássaro e Anjo (Contos)
(Prémio literário “A Balada”, Açores, 1989), 1987

Autópsia de Um Mar de Ruínas (Romance), 1984

O Meu Mundo Não É Deste Reino (Romance), 1983
(Prémio Dinis da Luz, Açores)

Há ou Não Uma Literatura Açoriana ? (Ensaio)
Toda e Qualquer Escrita (Ensaio), 1982

Navegação da Terra (Poesia), 1980
(Prémio Dinis da Luz, Açores, 1989)

A Produção Literária Açoriana nos Últimos Dez Anos (1968-1978) (Ensaio), 1979

Antologia Panorâmica do Conto Açoriano (Antologia), 1978

A Memória de Ver Matar e Morrer (Romance), 1977

Histórias da Resistência (Conto), 1975


INFANTO-JUVENIL

Carta a El-Rei Dom Manuel Sobre o Achamento do Brasil, adaptada para os mais novos (ilustrações de Carla Nazareth), 2009

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Construir, destruir, reconstruir - Dos terramotos à arte contemporânea | Engº João Appleton

Pedro Cabrita Reis | Unveiled Revealed


A arte contemporânea é imprevisível como os fenómenos sísmicos; partem de algo que se conhece (materiais, técnica, ciência), mas os resultados são quase aleatórios, como se dependessem apenas de "caprichos". 

A arte contemporânea, como os fenómenos sísmicos, não segue cânones, representa (pode representar) a ruptura com as regras, todas as experiências, todos os resultados, são possíveis e validáveis.
Na arte contemporânea estabelece-se um diálogo entre o artista e o outro, em que o desafio chega a limites extremos, permitindo todas as leituras, até a de um confronto brutal do artista consigo mesmo e com o seu público que, em última análise, se confunde com o todo da sociedade.
Um sismo é o evento extremo de uma Natureza em confronto consigo mesma e com o Homem.
A arte contemporânea recorre a todos os materiais, frequentemente fazendo a reciclagem de materiais usados, de todas as proveniências, porventura como resultado da destruição de outros; os sismos mobilizam todos os materiais estruturais e não estruturais, deles resulta destruição e reciclagem.
A arte contemporânea constrói a ordem a partir do caos que pode ser a própria essência da arte; os sismos transformam a ordem (e a desordem) em caos, deste nascendo uma nova ordem.
A arte contemporânea depura-se por si mesma, elimina a "ganga", o fortuito, abre novos caminhos que conduzem ao progresso do conhecimento; os sismos ajudam a separar o trigo do joio, são ocasiões excepcionais para construir as novas urbes.
No caso da exposição do Pedro Cabrita Reis, tudo começou pelo caos da destruição de uma ordem quase pura que o branco puro das paredes criava; desse caos evidenciado pelas ruínas da destruição criou PCR uma nova ordem, num espaço quase nú que evidenciava as entranhas, a alma do que existe para lá das paredes derrubadas; nessa nova ordem era o próprio PCR que se expunha, se despia mostrando a sua vida, a sua alma, pontuada por pedaços da sua existência mais próxima ou mais remota, na arte ou fora desta.
Por isso faz todo o sentido o texto/ carta que ele mesmo escreveu, para si agora, ou para o filho, quando o amanhã, futuro, for o presente agora, fusão de tempos no mesmo espaço destruído, ou antes, desconstruído, que anuncia um tempo novo.

Tudo isso, essa leitura através do tempo, mais acrescenta ao momento sublime da figura nua que usou as paredes palimpsestos para nelas imprimir, letra a letra, o texto que nos ensina a ver, a arte, qualquer arte.
Aliás, o trabalho de PCR no espaço Appleton Square, criando uma instalação em que o próprio espaço parece, mas só parece, ser o principal protagonista, é o produto de um olhar multiplamente repetido de PCR sobre aquele espaço, num projecto que parte de uma ideia chave mas que se vai amaciando e afinando na medida em que a própria realidade transformada obriga a olhar de novo para um melhor entendimento.
O terramoto de Novembro de 1755 começou por criar a morte, a destruição, o caos; deste veio a nascer a nova ordem, que os desenhos de Eugénio dos Santos e Carlos Nardel traçaram de forma exemplar.
O terramoto e os incêndios, muitos deles voluntariamente propagados, expuseram as entranhas de uma cidade, exibiram-lhe a alma; dos montes iniciais de destroços, organizados ao acaso, ou melhor desorganizados, nasceu depois a plataforma que hoje é a Baixa de Lisboa, do rio até ao Rossio, marcando o princípio da nova ordem.
A nova Baixa escondeu a antiga mas, sob a nova aparência, subsiste a cidade velha, aqui e ali reconhecível, em paredes e muros, pedras e madeiras, a que a arqueologia vai dando novos sentidos.
Na sua dissertação, Manuel da Maia expôs a sua alma, toda a sua competência que nos legou um conjunto de escritos de excepcional inteligência e sensibilidade, um texto para o então presente, uma lição de vida para qualquer futuro.
De forma subtil, simultaneamente humilde, como quem tem dúvidas, e afirmativa, como quem tem certezas, MM ensina-nos a ver e a entender os planos da nova cidade, subordinada a uma ordem nova, criada sem mancha de acaso.
A perfeita esquematização do raciocínio de MM fala-nos de uma ideia amadurecida, como se tudo já estivesse planeado e apenas à espera que Deus ou a Natureza garantissem o pretexto para a sua aplicação prática. Mas, como se depreende da leitura da dissertação, tudo se passa como se a inteligência de MM conhecesse o seu destino mas aceitasse as inflexões do caminho, o jogo de máscaras com o poder ou os poderes, até se alcançar o resultado final, um plano genial que se cumpriu com desvios mínimos ao longo de um século e apesar de tudo e de todas as vicissitudes e modas.
É curioso registar que a obra de PCR e o próprio PCR são contestados e amados ou odiados, mas não deixam ninguém indiferente.
MM também não era homem de consensos e a sua obra mestra - a condução dos planos da reconstrução da cidade destruída, nas suas vertentes filosóficas e técnicas - suscitou admiração e desprezo, mas não deixou ninguém indiferente.
Afinal é este o inevitável destino dos grandes, na arte ou nas técnicas, em todas as facetas da vida.


João Appleton, Janeiro 2011

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Numa galeria de arte, supõe-se, a priori, que se exponham peças de arte. Terão estas de ser exclusivamente incluídas na categoria Artes Plásticas? Claro que não. Depois de se ver a instalação que Pedro Cabrita Reis mantém, na Appleton Square, desde 18 de novembro, passamos a ter de nos perguntar muitas coisas relacionadas com a definição e o conceito de Arte. É o caos ou a ordem o que Cabrita Reis apresenta naquelas quatro paredes que eram brancas e lisas antes de ele ali chegar e de montar uma ordem nova? Ou montou uma desordem? Ou arrasou para chegar ao princípio? Ou começou outra coisa e de acordo com outros princípios? E é sempre Arte, criação, inspiração, suor, sangue, lágrimas. Ou beleza pura e sem disfarces. Depende do ângulo. 


Mas a Arte não pode ser reduzida a regras, preceitos e convenções, é um conceito amplo: engloba o que se pode fazer, entre outros meios, com as mãos, tenham estas entre os dedos pincéis, espátulas, marcadores, lápis, cinzéis, cordas, teclas variadas, canetas, pautas, tubos produtores de sons... E alcança também o que alguns cantores fazem com a voz.

Tudo isto a propósito do concerto de Sara Serpa, a cantora de jazz que usa a voz como um instrumento em diálogo, neste espetáculo, com a guitarra de André Matos. Não sei exatamente se em diálogo se em fusão porque não podemos dizer que a guitarra está ali para acompanhar o canto da intérprete. A guitarra complementa o scat, quando é esta a opção da cantora, suporta-o, mas conversa igualmente com a voz, seja quando ela apenas vocaliza seja quando pronuncia palavras em português dos dois lados do Atlântico ou em inglês.

Over an Ocean Away encantou todos os que se deslocaram à Appleton Square e foram muitos, de todas as idades. Tantos que o chão foi escasso para os que não se conseguiram sentar nas cadeiras disponíveis e numerosos foram os que ficaram ainda pelas escadas. Pelo oceano fora, fomos navegando ao som da voz e da guitarra pelos cerca de noventa minutos da atuação deste duo, tendo como cenário, no interior do cubo branco, um público caloroso. A voz da Sara é muito límpida e percebe-se que muito trabalhada, para isso contribuindo a sua formação clássica. Atinge sons muito altos mas modula-os sem esforço nas improvisações a que se entrega. É o canto na sua forma mais absoluta, despido das palavras.

A guitarra de André Matos não entra em competição com a voz mas não se limita a segui-la. Tem, na interpretação, uma segurança e uma ousadia notáveis, um inventar de sons insuspeitos nesse tipo de instrumento. Uma excelente combinação, a voz e as cordas desta guitarra, a Sara e o André.

Depois da conferência de João Madureira sobre Música Contemporânea, em 14 de dezembro, este concerto foi a segunda das realizações na Appleton Square e corresponde inteiramente aos objetivos deste projeto: apresentar, com uma frequência tanto quanto possível regular, em sessões com entrada livre, pessoas que conversarão com o público sobre temas ligados à música, à literatura, ao teatro, à engenharia, à arquitetura, à dança, à história da arte, ... Essas conversas alternarão com concertos e performances de índole diversa.

A próxima realização é uma conferência subordinada ao tema Construir, destruir, reconstruir - Dos terramotos à arte contemporânea. No dia 6 de janeiro, às 19h00, esperamos por si. A entrada é livre.

por Mercês Moita, coordenadora do 5às7

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Música para aquietar a alma, para a inquietar ou para a des-inquietar?

Que música apetece colocar a tocar quando se chega a casa depois de um dia de trabalho? Música doce e tranquila, cheia de harmonia, capaz de nos recuperar o ânimo? Música plena de sonoridades vivas? Um bom “clássico”, um compositor do século XVIII ou da primeira metade do século XIX? Rock sinfónico? Funk? Rap? Tony Carreira, Marco Paulo? Cançonetas românticas?

Muitos responderão que ouviriam com agrado um bom clássico, dos entre aspas serenos e comedidos compositores com grande estatuto e fama - Händel, Haydn, Mozart, Beethoven, ou até Chopin, que ficam sempre bem numa temporada de concertos e na aparelhagem lá de casa, às vezes enriquecida com as ofertas da imprensa diária e não diária. Para aquietar a nossa alma, ignorando-se talvez como as suas almas foram inquietas e angustiadas. E música contemporânea? Desculpe, disse música quê...? Ah, contemporânea. Música eletrónica?, Não, não, contemporânea. Sim, música com sintetizadores. Não, música contemporânea. Mas isso não é muito electrizante, muito barulhento? Esse tipo de música para um fim de tarde, para descansar? Quem é que aguenta isso? E, depois, não se entende.

Esta imaginária conversa será assim tão ficcional? Se as artes e as letras têm evoluído ao longo dos tempos; se viemos, nas Artes Plásticas, da imitação da natureza até aos - ismos dos nossos dias (começando a maior estranheza e até mesmo o escândalo nos inícios do século XX, com o Cubismo e o Abstracionismo); e se, hoje, experiências  de todo o género, na pintura e na escultura e nas artes performativas, são genericamente aceites e apreciadas, por que motivo não evoluiria também a composição musical e o gosto do público, apesar de muitas reticências, para outro tipo de jogos, de equilíbrios e de harmonias sonoras? Porquê termos, à partida, reacções pouco simpáticas e adversas, por simplesmente acharmos as novas formas de expressão apenas dignas de controvérsia? Provavelmente, precisamos somente de começar a ouvir e a saber quem faz o quê, ligando, depois, não só o nome à pessoa mas sobretudo, neste caso, a linha melódica ou o traço estilístico a um nome de um compositor.

Foi, conforme anunciado, da música contemporânea, para muitos controversa e adversa, talvez por preconceito, que nos veio falar João Madureira e tentou, nos noventa minutos disponíveis, com imensa boa disposição, provar-nos que a música dos nossos dias pode ser apenas diversa mas não perde, para a que a antecedeu, nenhum grau de qualidade nem de intensidade visto que os estados de alma dos compositores do século XX e do século XXI resultam de condicionantes análogas às que inquietavam e perturbavam os compositores dos séculos antecedentes.

Começou João Madureira, então, por afirmar que vivemos, neste começo do século XXI, um momento muito particular, no contexto da cultura musical ocidental visto ser este  “um momento em que assistimos à co-existência de um número aparentemente ilimitado de diferentes expressões musicais.

Perguntou, seguidamente, como achamos que poderá vir a ser possível enfrentar a enorme diversidade com que somos confrontados, lembrando-nos que “a música do século XX parece ser o resultado de uma expansão territorial”. Primeiramente, os grandes compositores alemães, do fim do século XIX, teriam suscitado uma geração de discípulos que levou as suas influências para a França, a Inglaterra, a Itália, daqui seguindo elas para o resto da Europa e para a Rússia. Depois, novos compositores, que foram surgindo e bebendo nessas fontes, estenderam-nas da Europa para o resto do Ocidente e, mais tarde, para o mundo em geral. Chegamos, depois de muitos anos em que vinham estudar para a Europa jovens músicos provenientes de países da distante Ásia, que voltavam ás suas terras para fazer música europeia, a um ponto em que podemos já encontrar música asiática contemporânea, feita nesse continente, por compositores chineses, japoneses, e outros que criam a sua música com autenticidade e identidade local, independentemente dos estudos que possam ter feito noutros países ou continentes e das influências aí recebidas.

João Madureira dividiu a sua apresentação em dois momentos: referiu inicialmente alguns dos acontecimentos mais relevantes da primeira metade do século XX, ilustrando-os com exemplos musicais pontuais, e falou, depois, da segunda metade do século XX, apresentando exemplos musicais mais abundantes e procurando, “nestes dois momentos, distinguir dois modos principais de encarar a música: como reinvenção e como reformulação. Ou seja: como um todo uno, ou como assumção do contínuo histórico a que pertence.”

Assim, filiou toda essa primeira fornada de compositores do século XX em Schubert, dramaticamente, para os seus apreciadores, falecido aos 32 anos de idade. Considerou que, na esteira deste compositor alemão, surgiu um ramo de músicos russos e oriundos de países próximos deste e um outro ramo que incluía compositores alemães e austríacos. No ramo mencionado primeiramente, temos, como iniciador, Rimsky-Korsakov e, no seu seguimento, Stravinsky, Schostakovitch e Bela Bartok, um compositor húngaro. O ramo alemão-austríaco tem, na primeira linha, Richard Wagner e Gustav Mahler e, na seguinte,  Arnold Schoenberg, Anton Webern e Alban Berg. Rimsky-Korsakov e a dupla Wagner/ Mahler vieram a influenciar os trabalhos e a produção dos compositores franceses Maurice Ravel e Claude Debussy, a estes se seguindo mais tarde, na mesma linha de influências, Olivier Messiaen. Para poder dar mais força às suas palavras, foi o nosso conferencista apresentando exemplos de alguns compassos de peças musicais destes compositores.



Na segunda metade do século XX, colocou no vértice de uma pirâmide, como figura principal da qual provêm os grandes músicos contemporâneos, Messiaen. Sob a sua influência, foi escrita a música dos também franceses Pierre Boulez, Tristan Murail e Gérard Grisey,. Entre os compositores italianos por Messiaen influenciados, destacam-se Luciano Berio e Luigi Nono. Com eles, podemos emparelhar o músico húngaro Gyorgi Ligeti, o alemão Karlheinz Stockhausen, o japonês Takemisu e o grego Xenakis.





Posteriormente, na mesma linha de experiências e até de conceitos, cruzando influências, veio a surgir a escola americana, onde se destacam figuras como Steve Reich e Philip Glass.




Desta plêiade de compositores, a que podemos juntar também o finlandês Sibelius e Schostakovitch, alguns ainda vivos e em plena produção, como é o caso de Pierre Boulez, receberam influência uma série de compositores já dos nossos dias, entre eles se destacando duas compositoras (Kaija Saariaho e Sophia Gubaldulina) e vários outros nomes de relevo como Lindberg, Ivan Fedele, Dalbavie, John Adams, Ferneyhough, Wofgang Rihm e o compositor chinês Tan Dun.



Depois de nos dar a ouvir um mix de peças de todos estes compositores, João Madureira finalizou a sua palestra, considerando estarmos a viver um aparentemente conturbado momento no contexto da cultura musical ocidental. Apesar de parecer conturbado, este momento não deixa de ser privilegiado e riquíssimo em manifestações, em experiências e em peças produzidas para delícia de quem aprecia a música e a quer como organismo vivo e, consequentemente, em contínua mudança. Como já Camões dizia no século XVI, “todo o mundo é composto de mudança/ tomando sempre novas qualidades




Links:


Da primeira metade do século XX


1. Franz Schubert – Quarteto de Cordas No. 15 in G major D. 887 (1º Andamento)
2. Igor Stravinsky – Le Sacre du Printemps (início)
3. Arnold Schoenberg – Sechs kleine Klavierstücke, Op. 19 (as seis peças)
4. Olivier Messiaen – Quatuor pour la fin du temps ("Louange à l'éternité de Jésus")

Da segunda metade do século XX
1. Olivier Messiaen – Quatre études de rythme (2º estudo: Mode de valeurs et d'intensités).
2. Karlheinz Stockhausen – Gruppen für drei Orchester (início)
3. György Ligeti – Lontano for Orchestra (início)
4. Luciano Berio – Sinfonia (II O King)
5. Gérard Grisey – Partiels (início)
6. Steve Reich – City Life (Part 1 "Check it out")
7. Ivan Fedele – Imaginary Skylines
8. Luciano Berio – Sinfonia (III - In ruhig fliessender Bewegung)
 (É o mesmo Cd de "4. Luciano Berio – Sinfonia")

Da primeira metade do século XX
1. Franz Schubert – Quarteto de Cordas No. 15 in G major D. 887 (1º Andamento)
2. Igor Stravinsky – Le Sacre du Printemps (início)
3. Arnold Schoenberg – Sechs kleine Klavierstücke, Op. 19 (as seis peças)
4. Olivier Messiaen – Quatuor pour la fin du temps ("Louange à l'éternité de Jésus")

 Da segunda metade do século XX
1. Olivier Messiaen – Quatre études de rythme (2º estudo: Mode de valeurs et d'intensités.
2. Karlheinz Stockhausen – Gruppen für drei Orchester (início)
3. György Ligeti – Lontano for Orchestra (início)
4. Luciano Berio – Sinfonia (II O King)
5. Gérard Grisey – Partiels (início)
6. Steve Reich – City Life (Part 1 "Check it out")
7. Ivan Fedele – Imaginary Skylines
8. Luciano Berio – Sinfonia (III - In ruhig fliessender Bewegung)

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Conferências e concertos






Enquanto espaço multidisciplinar, Appleton Square
vai apresentar, nas suas salas, performances, concertos e outras atividades que não é usual que entrem nas programações habituais de galerias. Gostaríamos de contar com a vossa presença. 

A entrada é livre.







A partir já do próximo dia 14 deste mês de dezembro que finaliza o ano de 2010, iniciaremos o projeto Quintas às Sete com uma conferência sobre Música, proferida por João Madureira, um jovem músico e compositor que nos mostrará a música dos séculos XX e XXI numa perspectiva aliciante e provocatória para aqueles que a sentem como adversa mas que poderão passar, depois de o ouvir, a considerá-la, apenas,diversa ou, pelo menos, só controversa.

Será uma excelente ocasião para os que ainda não tiveram a oportunidade de o ouvir, por exemplo, no salão nobre de S. Carlos, referindo, antes da representação, preciosas informações sobre a ópera em cena, ou que ainda não assistiram à apresentação pública de algumas das suas obras (a mais recente realizou-se na Capela do Rato, em Lisboa, em 23 de Maio deste ano).





Sobre João Madureira
www.joaomadureira.com
Entrevista